A Igreja não tem garantias de que ela sempre terá um papa (sem interrupções); mas quando ela possui um, é garantida à ela um que seja Católico.

Tuesday, February 7, 2017

Novos-velhos argumentos dos "Reconhecer & Resistir" (FSSPX, Resistência, etc.)

Dado o grande número de pessoas que a cada dia vão acordando para a triste realidade/reconhecimento a respeito da vacância da Sé, parece que os aderentes da posição R&R vão se encontrando mais e mais incomodados. Muitos deles se incomodam porque eles realmente acreditam poder "reconhecer" o papa, ainda que não obedecendo-o em absolutamente nada. Outros porque se preocupam com a parte política-financeira e a perda substancial de fiéis. A intenção do artigo é apontar seus erros, e não tentar decifrar quais deles erram honestamente e quais erram por maldade, isso compete a Deus. Dito isso, passemos a responder um dos últimos ataques, afinal, olhando rapidamente, eles podem parecer ir contra o sedevacantismo, quando, na verdade, não passam de julgamento temerário ou de uma total ignorância sobre o que se baseia a posição sedevacantista.


Argumento #1


"Omitir o nome do Papa no Cânon da Missa é equivalente a declarar-se fora da Igreja, e tal atitude tornaria a Missa mutilada e incompleta." (Papa Pelágio I) [1]


Resposta:

Ora, nenhum sedevacantista nega que se alguém retirar o nome "do Papa" do Cânon da Missa, tal ato seria cismático e faria a Missa ser, neste caso, "mutilada e incompleta". Acontece que Bergoglio "não é papa"; ou seja, tais pessoas desconsideram a própria essência do que veio a ficar conhecido como "Sedevacantismo"; ou seja, a posição de que a Santa Sé encontra-se vacante porque hereges públicos não são católicos, e não-católicos não fazem parte da Igreja, e "aqueles que não fazem parte da Igreja, não podem ser sua cabeça". Portanto, não há como eles retirarem o nome "do papa" de coisa alguma, já que não há nenhum papa reinante. Hereges manifestos vestidos de branco em Roma não significa que "habemus papam".

“Seria absurdo pretender que um homem excluído da Igreja tenha autoridade na Igreja” (Papa Leão XIII, Satis Cognitum, § 75) (1896)

“Esse princípio é certíssimo. O não-cristão não pode, de maneira alguma, ser Papa, coisa que o próprio Caetano admite (lib. c. 26). A razão disso é que um indivíduo não tem como ser cabeça daquilo de que ele não é membro; ora, quem não é cristão não é membro da Igreja, e um herege manifesto não é cristão, tal como foi ensinado claramente por São Cipriano (lib. 4, epist. 2), Santo Atanásio (Scr. 2 cont. Arian.), Santo Agostinho (lib. de great. Christ. cap. 20), São Jerônimo (contra Lucifer) e outros; consequentemente, o herege manifesto não pode ser Papa.” (São Roberto Belarmino, De Romano Pontifice, lib. II, cap. xxx)




Argumento #2

"Catecismo de São Pio X - sobre o nono artigo do Credo dos Apóstolos:

A Igreja em particular

12 Pergunta: As muitas sociedades de pessoas batizadas, mas que não reconhecem o Pontífice Romano como Cabeça, não pertencem, portanto, à Igreja de Jesus Cristo?

R: Não, aqueles que não reconhecem o Pontífice Romano como sua Cabeça não pertencem à Igreja de Jesus Cristo."
[2]


Resposta:

Exato mesmo erro do argumento de número #1. Não reconhecer "o Papa" coloca-nos para FORA da Igreja; ora, qualquer sedevacantista reconhece isto. Acontece que não podemos, por outro lado, reconhecer HEREGES PÚBLICOS como o vigário de Cristo na terra. Gostaria que o pessoal da FSSPX/Resistência percebesse que, "reconhecer" o Pontífice Romano requer muito mais do que simplesmente dizer que o "reconhece" e colocar uma fotografia do mesmo na entrada de suas capelas.

"Agora, como é possível para um homem estar unido com o Vigário de Cristo, se ele rejeita sua autoridade sagrada, se ele viola os direitos em virtude daquilo que o Vigário assegura ser, na cabeça da Igreja, no centro da unidade, possuidor da primazia da ordem e jurisdição, e do divino poder transmitido para ele em toda plenitude de pastorear, reger e governar a Igreja Universal?" [Papa Gregório XVI, Encíclica Commissum divinitus 1835]

"Em erro perigoso estão, pois, aqueles que julgam poder unir-se a Cristo, Cabeça da Igreja, sem aderirem fielmente ao Seu Vigário na Terra." (Papa Bonifácio III, Carta Apostólica Unam Sanctam)

"...estão separados da comunhão da Igreja aqueles que não estão em concordância com a Sé Apostólica". [Papa Pio IX, Letter from the Holy Office, Sept. 16 1864]

"Encontram-se em perigoso erro, portanto, aqueles que pensam poder estar com Cristo, cabeça da Igreja, sem aderir fielmente ao seu Vigário na terra." [Papa Pio XII, Encíclica Mystici Corporis 1943]

"Ninguém está na Igreja de Cristo, e ninguém permanece nela, a não ser que ele reconheça e ACEITE COM OBEDIÊNCIA a autoridade e poder de Pedro e seus legítimos sucessores". [Papa Pio XI, Encíclica Mortalium Animos, 1928]

Ou seja, será que eles não percebem que, objetivamente falando, são eles que se encontram em "perigoso erro", ou "fora da Igreja", por acreditarem ser possível reconhecer o Vigário de Cristo, mas rejeitar sua "autoridade, seu direito e seu divino poder"???



Argumento #3


"O papa é cabeça da "igreja Conciliar", mas também da Igreja Católica." [3]

Resposta:


O argumento é ilógico e blasfemo, ainda que essa não seja suas intenções.

"Os apóstolos e seus sucessores são vigários de Deus no governo da Igreja, que é construída sobre a fé e os sacramentos da fé. Portanto, da mesma forma que ela não pode instituir uma outra Igreja, ela não pode oferecer uma outra fé, nem instituir outros sacramentos."
[São Tomás de Aquino, Summa Theologica, III, q. 64, art. 2, ad. 3]




Argumento #4


Acreditem ou não, os aderentes do R&R retiram coisas desse tipo da cartola:

"O Papa ou a Igreja? Magistério Ordinário autêntico ou Magistério Falível... " [4]

Resposta:

Deixemos que o Papa Leão XIII ensine-lhes uma lição: 


"Essa é nossa última lição para vocês: receba e grave em suas mentes todos vocês: pelo mandamento de Deus, a salvação não é encontrada em nenhum lugar que não seja na Igreja, o instrumento forte e efetivo da salvação não é nada mais que o Pontificado Romano". [Allocution for the 25th anniversary of his election, 1903]

E o Papa Pio IX também: 


"A Igreja nunca pode ser conciliada com o erro, e o Papa não pode estar separado da Igreja". [Allocution to Roman pilgrims from abroad, November 27, 1871]

"Ubi ergo Petrus, ibi Ecclesia; ubi Ecclesia, ibi nulla mors sed vita aeterna - Aonde está Pedro, aí está a Igreja. Aonde está a Igreja, lá a morte não se encontra, mas a vida eterna." [Santo Ambrósio: In Psalmum XL Enarratio, PL XIV, 1134]

Logo, querer colocar a Igreja e o Vigário de Cristo como coisas distintas, adversárias ou contraditórias é no mínimo ilógico, e objetivamente herético.




Argumento #5


"O papa Francisco é um herege que não possui a fé, nós admitimos, mas nós não podemos julgá-lo, temos que esperar pela Igreja." [5]

Resposta:

"Um papa que se torna um herege manifesto perde automaticamente seu ofício... e toda sua jurisdição". [São Roberto Belarmino, De Romano Pontifice, II, 30]

"Se um papa, como pessoa privada, jamais caísse em heresia, ele cairia de seu pontificado de uma só vez." [Santo Afonso Ligório, Oeuvres Completés. 9:232]

“Seria absurdo pretender que um homem excluído da Igreja tenha autoridade na Igreja” (Papa Leão XIII, Satis Cognitum, § 75) (1896)

“Esse princípio é certíssimo. O não-cristão não pode, de maneira alguma, ser Papa, coisa que o próprio Caetano admite (lib. c. 26). A razão disso é que um indivíduo não tem como ser cabeça daquilo de que ele não é membro; ora, quem não é cristão não é membro da Igreja, e um herege manifesto não é cristão, tal como foi ensinado claramente por São Cipriano (lib. 4, epist. 2), Santo Atanásio (Scr. 2 cont. Arian.), Santo Agostinho (lib. de great. Christ. cap. 20), São Jerônimo (contra Lucifer) e outros; consequentemente, o herege manifesto não pode ser Papa.” (São Roberto Belarmino, De Romano Pontifice, lib. II, cap. xxx)

Canon 188.4, do Código de Direito Canônico de 1917:

“Há certas causas as quais efetuam a tácita (silenciosa) demissão de um posto, cuja demissão é aceita antecipadamente pela operação da lei, e, por conseguinte, são efetivas sem qualquer declaração. Essas causas são… (4) se ele publicamente deserdou da fé.”

Muitas outras citações e exemplos poderiam ser dados, mas creio que estes sejam suficientes no momento.



Argumento #6


"O sedevacantismo não pode estar certo porque Nossa Senhora em Fátima disse que um Papa iria consagrar a Rússia ao Imaculado Coração de Maria, se não há papa, não há consagração; mas como Nossa Senhora não pode falhar, falho então é o sedevacantismo." [6]

Resposta:

Primeiramente, para o Católico, a Revelação Divina (Sagrada Escritura e Tradição) sempre estará a frente da Revelação Privada (Aparições, visões, etc.), caso elas se contradigam.

Consequentemente, sabemos pela Revelação Divina que Deus estabeleceu uma Igreja "Santa", e que Ele prometeu em "perpetuidade" o Seu infalível auxílio através do Espírito Santo a "Pedro e seus sucessores". Logo, se testemunhamos um "Pedro" herege, blasfemo, apóstata, excomungado, sabemos que ele não pode ser o verdadeiro e legítimo Pedro, caso contrário a promessa de Cristo teria sido falsa.

Por outro lado, sabemos que os Modernistas tiveram oportunidades mil para distorcer documentos, omitir segredos e, aparentemente, até inventar uma outra irmã Lúcia para criar uma nova mensagem de Fátima. Logo, o que nos garante que eles não tenham mudado significativamente sua essência ou suas mensagens e segredos? Quem nos garante, por exemplo, que o famoso Terceiro Segredo não seria para alertar-nos sobre esses falsos papas das últimas décadas? Afinal, a data alegada para a sua revelação ("no mais tardar 1960"), coincide com a época em que surgiria o primeiro falso papa (1958). Curioso, não? Quem sabe a verdadeira mensagem de Fátima não esteja mais intimamente ligada com a vacância da Sé do que imaginamos? Eu diria que tal hipótese não é de se descartar...

E, para terminar, o sedevacantismo não nega que poderemos voltar a ter um papa no dia de amanhã, logo, tal consagração poderia ser cumprida sem qualquer problema.



Argumento #7


"Os Sedevacantistas julgam o papa". [7]

Nada mais longe da verdade. Não há como nós, os sedevacantistas, julgarmos o papa se no presente momento não há papa. Se nós tivéssemos, tenha certeza que o obedeceríamos e respeitaríamos. A FSSPX, Resistência e afins, por outro lado, acreditam que estes homens sejam papas, e ainda assim desobedecem, desrespeitam e até caçoam da pessoa que eles chamam de papa.

Acreditem ou não, até abaixo assinado eles fazem para "tentar depô-lo". Como se pudéssemos julgar o Vigário de Cristo na terra (o homem que a Igreja ensina infalivelmente não poder ser julgado por ninguém nesse mundo), com um mero apanhado de assinaturas. Seria risório se não fosse trágico tal atitude. Alguns chegam a ter a audácia de admitir que 'Francisco' venha a ser um anti-papa, ou mesmo o anti-Cristo, mas jamais que a Sé esteja vacante... Isso que eu chamo de uma diabólica contradição.


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[1] Unbrandable @ Cor-Mariae  "[Papa] Pelagius I disse que omiti-lo [una cum famulo] seria equivalente a declarar-se fora da Igreja, enquanto que de acordo com Ennódio de Pavia iria tornar o sacrifício mutilado e incompleto" (The Sacramentary: Historical and Liturgical Notes Sobre o Missal Romano, Ildefonso Schuster, Vol. I, página 273)

[2] Martius @ Cor-Mariae http://cor-mariae.com/index.php?threads/sedevacantism-is-creeping-into-the-false-resistance.4848/


[3] Dominicans of Avrillé e Padre Trincado http://nonpossumus-vcr.blogspot.com.br/2014/08/una-jerarquia-para-dos-iglesias.html


[4] O delirante e comediante Br. Athanasius/Sean Johnson/Seraphim @ ABLF3 http://ablf3.com/threads/the-authentic-magisterium-saves-us-from-sedevacantism.842/


[5] Padre Chazal a partir do minuto 44:50 @ https://www.youtube.com/watch?v=zkoG3rznTwQ  


[6] 
Fatima Center, Rev. Nicholas Gruner e praticamente todo o restante dos grupos R&R.


[7] Praticamente todo meio relacionado a FSSPX e Resistência usam esse "argumento".


Saturday, December 17, 2016

Heresia: O Pecado x O Crime


Alguns autores levantaram a seguinte objeção: Ninguém pode se tornar um verdadeiro herege, ao menos que ele seja primeiro
advertido ou admoestado pela autoridade da Igreja de que ele esteja rejeitando um dogma. Somente a partir daí ele terá a "pertinácia" (desobediência numa falsa crença) requerida para [se concretizar em] heresia.
Esse argumento confunde uma distinção que os canonistas fazem entre dois aspectos da heresia:

(1) Moral: Heresia como pecado (peccatum) contra a lei divina.

(2) Canônica: Heresia como um crime (delictum) contra a lei canônica.

A distinção moral/canônica é fácil de compreender se aplicarmos-a a lei do aborto. Existem dois aspectos em que podemos considerar o aborto:

(1) Moral: Pecado contra o 5º Mandamento que resulta na perda da graça santificante.

(2) Canônico: Crime contra o cânon 2350.1 do Código de Direito Canônico que resulta em excomunhão automática.

No caso da heresia, as advertências só ocorrem no canônico crime de heresia. [Mas] essas não são requeridas como condição para cometer o pecado de heresia contra a lei divina.

O canonista Michael expõe essa clara distinção para nós: "Pertinácia não inclui, necessariamente, uma longa obstinação ou advertências da Igreja." A condição para o pecado de heresia é uma coisa; a condição para o crime canônico de heresia, passível de punição pela lei canônica, é outra coisa." (Michael, "Héresie," em DTC 6:2222)

É nesse sentido que o pecado público de heresia do papa extirpa-o da autoridade de Cristo. "Se, de fato, acontecesse essa situação", disse o canonista Coronata, "ele [o Romano Pontífice] perderia, pela lei divina, e sem nenhuma sentença, seu ofício." (ibidem)


Fonte: Traditionalists, Infallibility and the Pope, (Appendix II, pg. 26 - Fr. Anthony Cekada)

A farsa do "Pequeno Catecismo sobre o Sedevacantismo", publicado pelos Dominicanos de Avrillé (FSSPX/Resistance)


A história começa em Avrillé com a publicação dos Dominicanos: "O Pequeno Catecismo sobre o Sedevacantismo". A primeira edição deste "pequeno catecismo" apareceu em Le Sel de la Terra em 2001, e apesar de muitos anos terem se passado desde então, os argumentos apresentados nesta publicação formaram a mentalidade dos fiéis FSSPX, dando a maioria deles uma paz mental com relação à posição de sua Fraternidade estar com o papa, ao mesmo tempo que se opõe a ele no ensino e na disciplina. O autor do "Pequeno Catecismo sobre o Sedevacantismo", Pe. Boulet parece estar dando uma investigação detalhada de todos os possíveis argumentos a favor e contra o sedevacantismo. Na realidade, este dito catecismo está funcionando como um muro protetor em relação ao menor pensamento que vague pela área do sedevacantismo. Ele provavelmente foi intencionado a imunizar as pessoas da FSSPX contra o sedevacantismo e, claro, para manter essa imunização válida, o texto ou os fragmentos dele foram propagados em vários outros artigos e boletins, até que seus parágrafos fundamentais foram profundamente infundidos em suas razões e consciências.


Perguntas e respostas usadas como num catecismo são usadas para convencer aqueles que estão em dúvida sobre a "questão do papa", se um papa, embora sendo um herege manifesto, continua sendo o papa da Igreja Católica. A maioria dos leitores do Catecismo de Boulet estariam convencidos da visão apresentada porque, invocando os grandes teólogos, ele parece se referir ao ensino da Igreja. Os nomes dos teólogos serviram para construir com a autoridade irrefutável das próprias opiniões de Boulet; é claro que ele expressou a posição da FSSPX.




A confiança simples e honesta no trabalho de Boulet pode ser observada nos muitos fóruns e blogues da Internet, aonde o "Catecismo" sobre o sedevacantismo é fielmente citado e suas sentenças circulam, são estimadas, e vistas como quase infalíveis. Os fiéis começaram a usar a tese de Boulet em seus debates privados e públicos, sabendo de algum modo que quem não aceitasse as frases dadas como uma bandeja cheia de sabedoria, seriam seus inimigos.

Essa autoridade que Boulet adquiriu usando os nomes dos verdadeiros defensores da Igreja Docente, até certo ponto, provou seu valor - mesmo quando aqueles que liam sabiam que a posição da FSSPX era falsa. Os polêmicos não aprofundaram muito nas referências teológicas (supostamente) dadas no Catecismo; eles se concentraram mais em argumentar contra a tese anti-sedevacantista do Pe. Boulet. Aqui, refiro-me a polemistas como Pe. Ricosta (2), John Lane (3) e Steven Speray (4).

Deve-se mencionar que o "Catecismo" dos Dominicanos foi publicado em quase todos os sites da FSSPX e traduzido para vários idiomas. A seguinte publicação da revista apareceu em 2004 (5), mas houve re-impressões freqüentes, especialmente quando um conclave estava ocorrendo. A abordagem anti-sedevacantista da escrita Dominicana foi aceita até mesmo pela nova onda dos "Reconhecer e Resistir" - a chamada Resistência - um movimento organizado pelos Frs. Pfeiffer, Hewko e Chazal. Podemos ver uma ponte estável entre o Catecismo Dominicano e o artigo do Pe. Chazal [Long Live Emperor Nullaparte] (publicado na principal imprensa da Resistência, o The Recusant (6)), como Pe. Chazal se referiu e copiou as referências do teólogo Dominicano.

Passemos agora ao texto do Rev. Boulet. Uma análise mais detalhada do mesmo será feita mais adiante. Por hora, antes mesmo de olhar para a tese do Catecismo Dominicano, olhemos mais de perto as provas e as referências dadas.

Se as provas fossem certas, teríamos que seguir (examinar) a retórica e suas conclusões. Em seu trabalho, o Pe. Boulet procura apoiar seu ímpeto anti-sedevacantista referindo-se aos renomados teólogos: São Belarmino, Billuart e Garrigou-Lagrange.

De acordo com o Pe. Boulet, esses teólogos promovem a opinião de que um papa manifestamente herético pode ainda ser um papa da Igreja.

Gostaria que os leitores examinassem comigo a maneira pela qual o Pe. Boulet "apontou" e mostrou esses três teólogos, como apoiadores da idéia da FSSPX de que hereges públicos reinariam validamente sobre a Igreja.


Notas de rodapé:

(1) Por exemplo, http://decemrationis.yuku.com/topic/64/Father-GL-on-a-heretic-as-pope#.WArSj-grKM9 , http://www.fisheaters.com/forums/index.php?topic=2197126.0 - Esse modo é amplamente apresentado

(2) http://wordpress.catholicapedia.net/wp-content/uploads/2015/01/Ab-Ricossa_Le-Sel-de-la-terre_et_le-sedevacantisme.pdf

(3) novusordowatch.org/wp-content/uploads/sspx_dossier_sede.pdf

(4) stevensperay.wordpress.com/2013/05/04/sedevacantism-and-rev-dominique-boulet-sspx/.

(5) fsspx.com/Communicantes/Dec2004/Is_That_Chair_Vacant.htm ; Houve também outras versões, com os mesmos argumentos e o mesmo esquema de argumentação, mas escritas (re-escritas) por diferentes autores, por exemplo: http://www.catholicapologetics.info/modernproblems/currenterrors/sede.htm

(6) www.therecusant.com/chazal-nullaparte-july2014)


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1. Por que a palavra adicional, "formal", foi adicionada ao argumento de São Roberto Belarmino?


Em seu Catecismo, Padre Boulet se refere a St. Roberto Belarmino:

"São Roberto Belarmino diz que um papa que formalmente e manifestamente se tornasse um herege perderia o pontificado." (1)

Em De Controversis: Em relação ao Romano Pontífice podemos encontrar a conclusão de São Belarmino referente a um papa herético:

"A verdadeira opinião é que um Papa que é um herege manifesto, deixa de ser papa e cabeça, assim como cessa em si mesmo de ser um cristão e membro do corpo da Igreja". (2)

"[E] que um herege manifesto seria ipso facto deposto, é provado pela autoridade e a razão." (3)
Além disso, no Capítulo "Se um Papa Herético Pode Ser Deposto", S. Belarmino desaprovou a opinião "de que o Papa não é e não pode ser deposto por sua heresia secreta ou manifesta", e concluiu que "seria a condição mais miserável da Igreja, se ela fosse compelida a reconhecer um lobo, manifestamente rondando, por um pastor "(4) - este contexto deve ser especialmente fatídico em relação à teoria da FSSPX de reconhecer um herege como pastor.

Surpreendentemente, o Pe. Boulet não tocou nesta parte da palestra de S. Belarmino, não mencionou e nem investigou nada.

(Para explicações e definições dos diferentes tipos de heresia, clique aqui.)


Boulet "enriqueceu" sua quase-citação do Santo. No texto de Boulet, junto com o "herético manifesto" de S. Belarmino, uma condição adicional é acrescentada - "formal"; assim, portanto, a sentença discute o caso de um "herege formal e manifesto". À primeira vista, parece que essa pequena adição não muda nada - mas ao olhamos de novo percebemos a magnitude dessa manipulação enganosa. É óbvio que São Belarmino em sua declaração não quis se referir a um herege material, baseado na ignorância invencível. De qualquer modo, a manifestação de uma heresia por um herege seria uma condição suficiente para que S. Belarmino o reconhecesse como um herege. Ele não estabeleceu mais condições, como um grau interno de consciência, ou uma razão interna do herege manifesto - "porque os homens não são obrigados, ou capazes, de ler corações, mas quando vê que alguém é um herege por suas obras externas, julgam-no como um herege puro e simples, e o condenam como um herege. "(5) Um ato externo, como algo visível e manifesto, é suficiente para julgar um herege. 

Contrariamente a isso, a publicação da FSSPX, ao usar a opinião de S. Belarmino de modo afirmativo, declarou:

"Mas se [o papa] frequentemente faz afirmações heréticas ou declarações que levam à heresia, não pode ser facilmente demonstrado que ele está ciente de rejeitar qualquer dogma da Igreja. E enquanto não há prova concreta, então é mais prudente se abster de julgar ".

Parece que "O pequeno Catecismo sobre o Sedevacantismo" está provando sua visão sobre a autoridade de São Roberto Belarmino; na verdade, a opinião do Santo é falsamente usada pelo Pe. Boulet pela necessidade de se ter uma autoridade superior para aprovar a sua posição. Ao acrescentar a palavra "formal", o autor da FSSPX quis privar-nos da certeza correta de nosso julgamento externo, que deveria ser "pura e simples".

Notas de rodapé:

(1) We can find out that Rev. Boulet referred to De Controversis: Concerning the Roman Pontiff, Book II, Chapter XXX (The Last Argument is Answered Wherein the Argument is Taken up, Whether a Heretical Pope Can be Deposed).

(2) St. R. Bellarmine, De Controversis On the Roman Pontiff, translated from the Latin by R. Grant, Mediatrix Press, 2015, page 309

(3) op.cit., page 305

(4) op.cit., page 305, underlined added

(5) St. R. Bellarmine, De Romano Pontifice, lib, IV, c. 9, no. 15


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2. A "citação" retirada do chapéu: Argumento de Charles-Rene Billuart.

Os leitores do "Pequeno Catecismo ..." são confrontados com a pergunta:

"Se um católico estivesse convencido de que [o papa] fosse um herege formal e manifesto, ele deveria, então, concluir que ele não é mais um papa?"

Para responder a isto e opor-se ao ensino de S. Belarmino, que ensina que devemos julgar um herege por seus atos externos, outro teólogo era necessário, Pe. Charles-René Billuart. Aqui temos a opinião mais espantosa:

"De acordo com a opinião mais comum, Cristo, por uma providência particular, para o bem comum e a tranqüilidade da Igreja, continua a dar jurisdição até mesmo a um pontífice manifestamente herético até o dia em que ele seja declarado herege manifesto pela Igreja. "

A nota de rodapé na frase acima está nos direcionando para Billuart, De Fide (Diss.V, A.III, No.3, obj.2).


Embora esta sentença seja dada sem aspas, em publicações posteriores elas serão dadas. Seria significativo, se a citação fosse verdadeira. Vamos abrir "De Fide", para verificar cuidadosamente a fonte da citação: Dissertatio V (De Vittis Fidei Oppositis), Articulus III (De Apostasia): Qui ab Ordine Sacro fine legitima dispensatione retrocedit ad statum Seacularem, est apostata & peccat mortaliter; quia deserit statum cui per Ecclesiam erat solemniter mancipatus, quem deserere vetant plures Canones, poenis impositis contra transgressores.(1)



Em português, isso se traduz como:

Aquele que abandona as Ordens Sagradas sem uma dispensa legítima [para] retornar a um estado laico, é um apóstata e peca mortalmente; porque deixar o estado religioso, cujo qual o mesmo foi inscrito solenemente pela Igreja, é proibido por vários Cânones, que impõem penas contra os transgressores.

A relevância da frase do "Pequeno de Catecismo ..." para a fonte dada na nota de rodapé é nula. Como já foi dito, esta "citação" de Billuart, que é falsa e fabricada, foi espalhada amplamente em vários lugares distantes. Poderíamos até supor que cada distrito da FSSPX o imprimisse em seu próprio boletim, e desde 2001 ninguém ousou verificar a comparabilidade da frase "citada" com a fonte dada! Podemos supor que esta infame sentença seja apenas um resumo (um preciso resumo) da atitude da FSSPX a respeito dos papas heréticos do pós-Vaticano II. Vejamos de novo: "Cristo, por uma providência particular, pelo bem comum e pela tranqüilidade da Igreja, continua a dar jurisdição até mesmo a um pontífice manifestamente herético" - isto é absolutamente inaudito e oposto aos ensinamentos da Igreja. Quão surpreendente que ele tenha sido "citado" como trabalho de Billuart! Os teólogos da FSSPX devem estar desesperados para ter a "citação" para sustentar a si mesmos e nos dar a confirmação de sua própria filosofia.

Não é uma blasfêmia dizer que "Cristo continua a dar jurisdição de Sua Igreja a um pontífice manifestamente herético"? Cristo "por uma providência particular" colocaria Sua Igreja nas mãos do destruidor e trairia Seu Corpo Místico? Ele transformaria seu corpo místico em uma prostituta?

Não devemos duvidar que a idéia de Padre Boulet - e todas as outras apologias dessa idéia de que um herege manifesto ainda seja, pela providência de Deus, um papa - transformaria a Verdade em fraude e o caminho da salvação em danação. Será que os que desprezam Cristo teriam jurisdição e poder sobre aqueles que se reúnem com Cristo, seriam os condenados [ao inferno] escolhidos para governar (no sentido da autoridade de ensinar, codificar a lei moral e o modo de adorar a Deus) sobre os justos e fiéis?

Esta manipulação das mentes dos fiéis feita pelo Pe. Boulet e pela FSSPX como editora de seu trabalho é um abuso, uma decepção e um escândalo. O Rev. Boulet encobriu sua declaração (isto é, a da FSSPX) na autoridade de Billuart.


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3. Omissão da palavra - "secreto" - e suas conseqüências (diabólicas). Argumento do Padre Reginald Garrigou-Lagrange.

Além da falsa referência de Billuart, outra autoridade também foi empregada para apoiar a posição da FSSPX. O autor do "Pequeno de Catecismo ..." apoiou suas opiniões no "De Verbo Incarnato", do Padre R. Garrigou-Lagrange e escreveu:

"O Dominicano Padre Garrigou-Lagrange, baseando seu raciocínio em Billuart, explica em seu tratado "De Verbo Incarnato" (p.232) que um papa herético, embora não seja mais membro da Igreja, ainda pode ser Sua cabeça.

Embora apenas a página (pág.232) de "De Verbo Incarnato" tenha sido dada, é óbvio que fomos direcionados para o Capítulo X, [Christ Grace as Head of the Church], da obra do Pe. Lagrange. No Terceiro artigo deste capítulo, ao expor a definição dogmática da Igreja (Dn. 430) como "congregação dos fiéis", o Pe. Lagrange continua: "A Igreja é definida como "a congregação dos fiéis", na medida em que a fé seja o fundamento e o início da vida sobrenatural". Ele escreveu a conclusão óbvia de que "o herege formal batizado não é um membro atual da Igreja". O último argumento sobre este ponto - contestando que um caráter batismal não é suficiente para uma membresia da Igreja - era que "caso contrário, Cristo seria a cabeça dos batizados que estão condenados" (pág. 319).


Dessa forma, ele chegou à sua "objeção de S. Roberto Bellarmino", que ensinou que os hereges secretos são membros externos da Igreja, e - enquanto dizia "membros externos", S. Belarmino ainda os incluíam como membros da Igreja. Fr. Garrigou-Lagrange opôs-se a isso, afirmando a conclusão de que "os hereges ocultos (secretos) são apenas membros aparentes da Igreja".

O que o Pe. Garrigou-Lagrange definiu é a liderança de Cristo, como a participação na graça. Ele considerava o vínculo permanente interno com Cristo constituído pela Fé. É por isso que ele excluiu hereges secretos da Igreja, embora admitisse que "externamente e visivelmente professavam a Igreja como a verdadeira Igreja". No entanto, superando esta dificuldade, ele disse: 
"Esta condição é bastante anormal (...), ou seja, que o papa se tornando um herege secretamente não seria mais um membro atual da Igreja (...), mas ainda manteria sua jurisdição pela qual ele influenciaria a Igreja ao regê-la. Assim, ele ainda seria nominalmente a cabeça da Igreja, ele ainda governaria como cabeça, ainda que não fosse mais um membro de Cristo, a cabeça invisível e primária ". (Página 319)

Seja como for, Pe. Lagrange não pôde evitar incluir os hereges secretos na união visível da Igreja - "A Igreja sempre consistirá na união visível de seus membros com a sua cabeça visível (...), embora alguns, que externamente parecem ser membros da Igreja Igreja, possam ser hereges privados. "

Concluindo neste ponto, podemos resumir que Pe. Lagrange:

- Definiu a pertença da Igreja como, dependendo da fé, união permanente (união perfeita ou imperfeita) com Cristo;

- Contrariamente a S. Bellarmino, excluiu hereges secretos da membresia da Igreja;

- Referindo-se à possibilidade de um Papa ser um herege secreto, afirmou que "o papa é constituído um membro da Igreja pela sua fé pessoal, na qual ele pode perder, e sua liderança da Igreja visível pela jurisdição e pelo poder é compatível com a heresia privada .";

- Definiu a união visível cuja qual a Igreja consiste, incluindo os hereges secretos (não manifestos!).


A contradição, que ele compreendeu - não-membros, mas participantes de uma união visível - leva-o para o ponto de dúvida (1), que foi posteriormente mal utilizado por Boulet. Este é o ponto que o autor do "Pequeno Catecismo ..." (ilegalmente) usou: ele tomou a parte desta contradição - não-membro - fora de seu contexto. Fr. Garrigou-Lagrange disse que os não-membros da Igreja são sustentados na unidade visível da Igreja apenas em relação aos hereges secretos, que são "membros aparentes da Igreja, que externamente e visivelmente professam ser a verdadeira Igreja". Podemos repetir para enfatizar esta condição substancial novamente: hereges secretos são hereges em seus corações ou pensamentos apenas, mas por suas palavras e ações professam a Igreja. Em outras palavras, não seríamos capazes de notar qualquer diferença entre o membro real e aparente da Igreja. Se pudéssemos ver a diferença, em palavras ou ações, a heresia seria manifesta, não mais secreta.

No texto do "Pequeno Catecismo ..." foi feita uma omissão do adjetivo "privado" (secreto) como um atributo do herege. Além disso, o texto imputa que a versão dada é retirada do ensino deste renomado e respeitado teólogo. O autor não incluiu a mudança na "citação" do Pe. Garrigou-Lagrange e substituiu aqueles que externamente e visivelmente professam a verdadeira Igreja por aqueles que agem e falam de forma manifestamente herética.

Podemos dizer que a "pequena" omissão causou uma grande confusão no ensino da Igreja.



Nota de rodapé:

(1) Provavelmente assumindo que a jurisdição e o poder não são "pessoais" (como a fé é), mas que a jurisdição e o poder são delegados (por Cristo) e - enquanto forem externamente exercidos de acordo com a profissão da Igreja - são compatíveis com uma heresia secreta.


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Conclusão


A posição da FSSPX e da Resistência sobre o papa herege ainda sendo um papa não é apoiada por qualquer ensino pré-Vaticano II.

Pe. Boulet fez essas manipulações para dar a seu argumento a aparência de ter o apoio de vários teólogos altamente respeitados, a fim de tentar provar as raízes ortodoxas desta idéia de um destruidor ser um verdadeiro pastor. Uma vez expostas, essas manipulações só servem para destacar a posição fraudulenta da FSSPX.

Com conseqüências devastadoras, o "Pequeno Catecismo sobre o Sedevacantismo" serviu como um encantamento nas mentes do pessoal da FSSPX e suas ramificações.

A realidade é que o bem comum e a tranqüilidade da Igreja exigem a preservação da fidelidade da Igreja para com Deus.

Um lobo usurpando o papado realiza o oposto.



Nota de rodapé:

(1) Provavelmente assumindo que a jurisdição e o poder não são "pessoais" (como a fé o é), mas que a jurisdição e o poder são delegados (por Cristo) e - enquanto forem externamente exercidos de acordo com a profissão da Igreja - são compatíveis com uma heresia secreta.

Thursday, November 3, 2016

RESPOSTA AO BISPO WILLIAMSON


A Propósito da Vacância da Sé Romana
(mar. 2014)
Bispo Donald J. SANBORN


Introdução

O bispo Williamson colocou recentemente em seu blogue Kyrie Eleison uma série de artigos tentando refutar o sedevacantismo. Tendo ele atraído para si os mais ferrenhos anti-modernistas da FSSPX, creio que bispo Williamson está encontrando entre eles uma certa tendência para o Sedevacantismo. Alguns deles são sedevacantistas professos, se bem que opinionistas na maioria dos casos; isto quer dizer que, embora estimem que Bergoglio não seja papa, reconhecem que a opinião contrária, de que Bergoglio é o papa, tem alguns argumentos prováveis a seu favor. Tenho certeza de que a minha recente visita à Inglaterra agitou um pouco as coisas também.

No presente artigo, estou respondendo a dois artigos do bispo Williamson de seu blogue, os de número 342 (de 1.º de fevereiro de 2014) e 344 (de 14 de fevereiro de 2014).

Permitam-me declarar que não tenho conflito pessoal algum com o bispo Williamson a despeito de nossos muitos anos de oposição no passado. Ele manteve a discussão em alto nível e racional, pretendo fazer o mesmo.

Resumi e parafraseei os argumentos dele, em prol da brevidade.


O Primeiro Argumento
[Tirado do Número 342]

O bispo Williamson defende a posição do Arcebispo Lefebvre de aceitar os papas Novus Ordo, mas ao mesmo tempo, passando os ensinamentos e leis deles por uma peneira; retendo o que é católico e rejeitando o que é acatólico. Ele diz que fazer isso por escolha pessoal é equivalente a heresia, mas não é equivalente a heresia caso se faça a escolha baseando-se em uma tradição bimilenar.

Resposta. (1) Todo herege apela a alguma forma de revelação, seja da Escritura ou da Tradição, para fazer a sua escolha de doutrina que é contrária ao ensinamento da Igreja Católica. Assim, o católico tradicional, ao escolher doutrina, não fica salvo do espírito de heresia. Por quê? Porque ele apela à Tradição acima do magistério da Igreja. O magistério, porém, é infalível, e portanto é necessariamente tradicional.

(2) A hierarquia católica é a fiadora da conformidade do ensinamento presente com o ensinamento tradicional. Nós não podemos, por um lado, considerá-los como autoridade e, ao mesmo tempo, dizer que a doutrina deles se desvia da Tradição. Desviar-se da Tradição é estar em erro. A noção própria da infalibilidade inclui que a doutrina que eles ensinam esteja em conformidade com a Tradição. Como poderia ser infalível se ela se desvia da Tradição? Se a doutrina deles desvia da Tradição, só há uma coisa a se dizer: eles não são a autoridade, dado que manifestam que não são assistidos por Cristo na promulgação de doutrina.

Os católicos, consequentemente, não precisam, nem podem, peneirar o magistério da Igreja à procura de erros ou heresias. A finalidade própria da Igreja Católica é a de ensinar infalivelmente a raça humana em nome de Cristo, que presta assistência perpétua à Igreja para fazer exatamente isso.

Além disto, o sistema de peneirar o magistério para separar o que é da Tradição despoja toda autoridade dos pretensos papas e bispos. A autoridade, num caso desses está, na realidade, com o peneirador, já que ele tem a última palavra quanto ao que é católico ou não. Despojando, assim, a hierarquia do Novus Ordo de sua autoridade de ensinar, governar e santificar a Igreja, o bispo Williamson está efetivamente argumentando em prol do sedevacantismo.


O Segundo Argumento
[Tirado do Número 342]

O bispo Williamson cita o argumento dos sedevacantistas de que os “papas” do Vaticano II promulgaram falsas doutrinas, leis e culto. Assim fazendo, estes destroem a indefectibilidade da Igreja, se forem verdadeiros papas. Para rebater esse argumento, ele aduz o caso do Papa Libério (352-366), que – alega ele – assinou um formulário herético. Neste caso, diz ele, a indefectibilidade não operou através do papa, mas através de Santo Atanásio, que permaneceu ortodoxo. De igual maneira em nosso tempo, a indefectibilidade é assegurada através do Arcebispo Lefebvre e daqueles que o seguem.

Resposta. 
Há três coisas a reparar aqui. 

(1) O Papa Libério não assinou um formulário herético. Assinou, sim, um formulário ambíguo, dando a este interpretação ortodoxa. Mas ainda que se concedesse, em prol da argumentação, que ele tivesse assinado um formulário herético, é certo que o Papa Libério não ensinou essa doutrina à Igreja inteira. Ora, as falsas doutrinas do Vaticano II têm sido promulgadas para toda Igreja pelos “papas” do Vaticano II e seus “bispos”. Esse fato representa uma diferença essencial entre o caso Libério e o dos “papas” do Vaticano II. Logo, a analogia é falsa.

(2) A indefectibilidade não fica salva pela fidelidade de um bispo ou de alguns bispos aos quais os fiéis devam aferrar-se. A Igreja Católica é essencialmente hierárquica, e consequentemente não é possível separar os seus atos e os seus atributos, dos Papas e da hierarquia universal. O que eles fazem, ela faz. Se eles falham, ela falha. O dom da profecia no Antigo Testamento, que era a missão de ensinar infalivelmente a revelação de Deus para os judeus, foi transferido por Cristo no Novo Testamento à Hierarquia católica. Logo, não pode haver nenhum “bispo-profeta” como o Arcebispo Lefebvre que peneire os ensinamentos da hierarquia católica, tornando-se ele próprio a autoridade infalível. A infalibilidade e indefectibilidade da Igreja Católica tem de ser operada pelo Papa e bispos em união com ele. Ela não tem como ser garantida por um ou alguns bispos que estabeleçam a si próprios como corretores do Papa e do restante da hierarquia. Sustentar uma teoria dessas arruína a constituição divina da Igreja Católica. A essência do Catolicismo é estar dotado de uma hierarquia que tem poder de ensinar, governar e santificar em nome de Cristo e com a mesmíssima autoridade que Jesus Cristo. Se os fiéis, para descobrirem a verdade sobrenatural, precisam recorrer a bispos-profetas, denunciantes que se voltam contra esta hierarquia, a própria natureza e essência da Igreja Católica cai em ruína.

Noutras palavras, ninguém pode falar em nome de Deus acima ou à margem da Hierarquia Católica-Romana.

(3) O sistema do bispo Williamson, de peneirar o magistério para determinar sua conformidade com a Tradição, subverte completamente a regra católica da fé, que é o magistério da Igreja Católica. O sistema dele é essencialmente o dos protestantes. Eles sustentam que cada indivíduo tem de decidir por si mesmo qual a verdadeira interpretação das Escrituras. O bispo Williamson está dizendo que cada católico precisa decidir por si mesmo o que ele considera estar em conformidade com a Tradição ou não. Uma tal regra da fé conduziria a exatamente o que o protestantismo é: um aglomerado de pessoas que não têm absolutamente nenhuma unidade de fé, que altercam infindavelmente acerca do que dizem as Escrituras, e que se fragmentaram numa miríade de facções dogmáticas.

Há muitos casos na história da Igreja Católica em que esse apelo ao mais alto tribunal da Tradição por sobre a cabeça do magistério levou a grave erro. Os Donatistas tornaram-se cismáticos, por exemplo, porque pensaram que a Igreja estava errada em aceitar como válidos os sacramentos daqueles que tinham caído em apostasia durante a perseguição. Os Gregos entraram em cisma no século IX porque diziam, entra outras coisas, que o uso de pão ázimo no rito romano não era tradicional, e que portanto não era válido. Eles rejeitaram também o primado do Papa sob pretexto de que não fosse tradicional. Os vétero-católicos no século XIX, igualmente, rejeitaram a infalibilidade papal alegando que ela não fosse tradicional. Mesmo os modernistas argumentam que a Igreja Católica transformou-se com o tempo em algo que não pode ser encontrado na Igreja primitiva, e que portanto não é tradicional. Toda a reforma litúrgica da década de 1960 foi baseada na noção falsa do arqueologismo, a saber: de que os períodos medieval e tridentino criaram uma liturgia que não estava em conformidade com a tradição primitiva. Os Feeneyítas (Fineístas) alegam que a doutrina católica do Batismo de Sangue e de Desejo não pode ser reconciliada com a Tradição, mas foi inventada no século XIX.


A noção do bispo Williamson de peneirar a tradição, que é uma urdidura de Ecône, é um potencial vespeiro de heresia e cisma, e põe o católico tradicional nas piores companhias.


O Terceiro Argumento
[Tirado do Número 342]

O bispo Williamson afirma corretamente: “O que os bispos do mundo ensinam, em união com o Papa, é o Magistério Universal Ordinário da Igreja, que é infalível.” Ele propõe então o argumento dos sedevacantistas de que, dado que o Vaticano II tem sido promulgado pelos “papas” e “bispos” do Vaticano II, é impossível que eles sejam verdadeiros Papas e bispos. O bispo Williamson responde a isto dizendo que o Magistério Ordinário Universal do Vaticano II e anos subsequentes não esteve de acordo com a Tradição. Logo, não é magistério ordinário universal. Logo, o argumento dos sedevacantistas é falso.

Resposta. A noção que o bispo Williamson tem do Magistério Ordinário Universal (a ordem usual das palavras; doravante: MOU) é falsa. Vem de uma teoria que era comumente propagada em Ecône quando lá estive, de que um ensinamento não qualificava como MOU se não estivesse em conformidade com a Tradição. Logo, nessa visão, é possível que o Romano Pontífice junto do inteiro corpo dos bispos ensine uma doutrina à Igreja inteira que, de fato, seja herética. Uma afirmação dessas é que é herética!

Em parte alguma, a ideia Econiana de fazer a triagem do MOU pode ser encontrada nos livros-texto de teologia dogmática ou no ensinamento da Igreja Católica. A definição de MOU dada pelo Pe. Reginald-Maria Schultes O.P., escrevendo em 1931, é a seguinte: “O magistério ordinário e universal é exercido quando a Igreja prega a doutrina revelada, ensina-a em suas escolas, publica-a através dos bispos, e a atesta e explica através dos Padres da Igreja e dos teólogos.”
[1. Schultes, Reginald-Maria, De Ecclesia Catholica Prælectiones Apologeticæ (Paris: Lethielleux, 1931), p. 355. Itálicos do original.] Todos os teólogos católicos concordam nesta definição.

O Pe. Sylvester Berry escreve:

“A autoridade docente ordinária dos bispos é aquela que eles exercem ao ensinarem os fiéis de suas respectivas dioceses mediante cartas pastorais, sermões proferidos por eles próprios ou por outros aprovados para esse fim, e mediante catecismos ou outros livros de instrução publicados e aprovados por eles. Quando os bispos da Igreja, empenhados desse modo no dever de instruir seu povo, são praticamente unânimes em proclamar uma doutrina de fé ou costumes, diz-se que eles exercem a autoridade docente universal, e são então infalíveis quanto a esta doutrina. Noutras palavras, uma doutrina de fé ou moral na qual praticamente todos os bispos da Igreja concordem é infalivelmente verdadeira. A fé da Igreja discente deve corresponder à fé proposta pelos bispos que constituem o corpo docente na Igreja. Logo, se os bispos como um corpo não fossem infalíveis, a Igreja toda poderia ser induzida em erro a qualquer momento, e destarte cessar de ser a Igreja de Cristo, a coluna e o fundamento da verdade.”
[2. Berry, Sylvester, D.D., The Church of Christ (Saint Louis: B. Herder, 1927), pp. 466-467.]

Para provar ainda mais o que estou dizendo, chamo vossa atenção para o livro-texto de Teologia Dogmática escrito pelo Pe. Francis Diekamp em 1917, intitulado Theologiæ Dogmaticæ Manuale. Ele afirma:

“Os bispos individuais exercem o supramencionado magistério ordinário na sua instrução religiosa ordinária ou em instruções desse tipo que ocorram por ordem sua e sob sua vigilância, e em juízos publicados pelos Soberanos Pontífices e dados por escrito, em Sínodos sejam provinciais ou diocesanos, na condenação de erros feita em cartas pastorais, na publicação de catecismos ou livros de devoção que são distribuídos à diocese toda, etc.Os livros litúrgicos prescritos pelos bispos e especialmente pelos Romanos Pontífices são de grande importância em argumentos tocantes ao dogma. As leis, ritos e orações neles contidas dão testemunho da fé dos pastores e dos fiéis. Do consenso, com que todas as igrejas ocidentais e orientais concordam na fé, advém obrigação de prestar o assentimento de fé. O Papa Celestino I [422-432] ensinou isto: “Olhemos também para os mistérios sagrados das orações dos sacerdotes, que foram transmitidas desde os Apóstolos e são uniformemente celebradas no mundo todo e em todas as igrejas católicas, a fim de que a lei da oração fixe a lei da crença.” [Destaque no original.] (Epist. 21, 11)

A doutrina dos bispos considerada conjuntamente, exatamente como a definição ex cathedra do Romano Pontífice, não é tornada infalível pelo assentimento que a Igreja discente dá a ela; pelo contrário, é infalível por si mesma em razão da assistência divina, pela qual é preservada de erro. [Grifos adicionados.]

A doutrina exposta por esses autores, bem como a descrição do MOU, estão em conformidade com a de todos os teólogos católicos. Ultrapassa o escopo deste artigo aduzir todas as provas.

A noção de MOU do bispo Williamson, por outro lado, não pode ser encontrada no livro de nenhum teólogo católico, nem no magistério da Igreja. A ideia de MOU do bispo Williamson exige que o ensinamento universal da Igreja seja analisado e adjudicado pelos fiéis quanto à sua conformidade com a Tradição. Num tal cenário, é inteiramente possível que a hierarquia ensine heresia num dado ponto qualquer, mas que a infalibilidade e indefectibilidade da Igreja sejam preservadas pela própria rejeição desse magistério, baseado nos fiéis que não a encontrarem conforme à Tradição. 
Isso é tão absurdo como dizer: “a Igreja Católica é infalível exceto quando erra.” Ademais, o sistema dele requer que os fiéis formem o juízo de se aceitar ou não o magistério ordinário universal, baseados numa convicção pessoal de que ele esteja em conformidade com a Tradição ou não. Noutras palavras, os fiéis devem peneirar o ensinamento da Igreja universal toda vez que ela se pronuncia, a fim de distinguir a verdade do erro. Como já disse, tal noção de magistério despoja o Papa e a Hierarquia de sua autoridade e a desloca para o indivíduo, já que ele possui a última palavra no quesito se a doutrina está ou não, conforme à Tradição.

O que o bispo Williamson diz sobre a Tradição também poderia ser atribuído à Escritura. E se eu pensar que algum ato do magistério da Igreja não esteja compatível com a Sagrada Escritura? Tenho então o direito de rejeitá-lo, ao mesmo tempo que considero tal papa, negador da Escritura, como verdadeiro Vigário de Cristo?

A arrepiante realidade é que as ideias do bispo Williamson estão em exata conformidade com aquilo que o herege arquimodernista Hans Küng disse em seu livro de 1970 intitulado Infalível? Uma Interpelação. Nele, Küng diz que a infalibilidade da Igreja não está atrelada a fórmulas dogmáticas, as quais, diz ele, na realidade podem estar erradas, mas sim ao comprometimento global e duradouro da Igreja com a verdade. Küng afirma:

“A infalibilidade, a inenganabilidade nesse sentido radical, significa, portanto, uma permanência fundamental da Igreja na verdade, que não é anulada por erros individuais.”
[3. Küng, Hans, Infallibility? An Inquiry (Garden City, New York: Doubleday, 1971), pág. 181. Destaques do original.]

“Mas ser verdadeira, por parte da Igreja, não depende absolutamente de proposições infalíveis bem definidas, mas em permanecer ela na verdade através de todas as — mesmo errôneas — proposições.”
[4. Ibid., pág. 182.]

Ele cita Yves Congar, outro arquimodernista no Concílio:

“Uma ou outra parte da Igreja pode errar, até mesmo os bispos, até mesmo o papa; a Igreja pode ser chacoalhada pelas tempestades: no fim, ela permanece fiel.”
[5. Citado em ibid., pág. 183.]

E a seguinte afirmação de Küng se assemelha bem de perto à posição do bispo Williamson:

“Onde, então, nesses tempos sombrios, a indefectibilidade da Igreja foi realmente manifestada? Não na hierarquia nem na teologia, mas entre aqueles inumeráveis, e em sua maioria desconhecidos cristãos — e sempre houve alguns bispos e teólogos no meio deles — que, mesmo nos piores períodos da Igreja, ouviram a mensagem cristã e tentaram viver de acordo com ela na fé, no amor e na esperança.”
[6. Ibid., pág. 189.]

“Foram eles as verdadeiras testemunhas da verdade de Cristo…”
[7. Ibid.]

Küng cita os cismáticos orientais, a fim de provar sua tese:

Os patriarcas cismáticos escreveram a Pio IX em 1848: “Entre nós, nem Patriarcas nem Concílios jamais lograram introduzir novos ensinamentos, pois o guardião da religião é o próprio corpo da Igreja, ou seja o próprio povo (laos).” [8. Apud ibid., pág. 200.]

Küng cita o teólogo russo cismático Alexei Khomiakov, que diz:

“A constância invariante e verdade inerrante do dogma cristão não depende de nenhuma ordem hierárquica; ela é guardada pela totalidade, pelo inteiro povo da Igreja, que é o Corpo de Cristo.”
[9. Apud ibid., página 201.]

Nos Trinta e Nove Artigos anglicanos, lê-se: “Assim como as Igrejas de Jerusalém, de Alexandria e de Antioquia erraram; assim também a Igreja de Roma errou, não somente em sua conduta e forma cerimonial, mas também em questões de fé.”

O bispo Williamson não consegue escapar do acordo com esses hereges protestantes, pois mantendo ele que a hierarquia modernista é a hierarquia católica, ele não tem como fugir da conclusão de que “a Igreja de Roma errou”. Em contrapartida, o sedevacantista mantém que os falsos ensinamentos e práticas do Vaticano II não vêm da Igreja de Roma, mas de um grupo de mafiosos eclesiásticos, hereges, que estão simulando ser a hierarquia católica. O dever do católico nesta crise é desmascarar esses impostores, e denunciá-los como falsos hierarcas.

É verdade que devemos comparar todas as coisas, ditas por quem quer que seja, com o ensinamento tradicional da Igreja. De igual maneira, comparamos com os primeiros princípios da razão tudo aquilo que ouvimos, e imediatamente rejeitamos o que for contraditório. Num caso como o nosso, em que vimos a aparente hierarquia católica ensinar falsa doutrina e promulgar falso culto e leis pecaminosas, é necessário concluir que eles não são verdadeiros papas e bispos, dado que é impossível que verdadeiros papas e bispos, tomados como um todo, façam uma coisa dessas. A defecção do Vaticano II com relação à verdade, e seu ensinamento de heresia à Igreja universal, são sinais infalíveis de que Paulo VI não era verdadeiro papa, e nunca foi um verdadeiro papa. Pois toda a autoridade de qualquer concílio geral depende do Papa.

A doutrina que acabo de expor está inteiramente concorde com a Sagrada Escritura, na qual São Paulo, em Gálatas I, 8-9, afirma: “Mas ainda que nós, ou um anjo do céu, vos pregue um evangelho além daquele que nós vos pregamos, seja anátema. Como eu já disse, digo novamente agora: Se alguém vos pregar um evangelho, além daquele que vós recebestes, seja anátema.” Note-se que ele não os manda peneirar o docente de falsidades à cata de migalhas de boa doutrina, mas pelo contrário, manda que eles o rejeitem por completo. Seja anátema. Esta doutrina está em conformidade também com a bula do Papa Paulo IV Cum ex apostolatus de 1559, que convoca à completa rejeição de um Romano Pontífice que se descubra ser herege, e não à triagem da doutrina dele.

Resumindo minha resposta: O magistério ordinário universal, que é o ensinamento referente à fé e à moral de todos os bispos espalhados pelo mundo inteiro, junto do Romano Pontífice, é infalível. Esta doutrina foi definida no Concílio Vaticano de 1870, e está no Código de Direito Canônico de 1917. Logo, é herético até mesmo pôr em dúvida aquilo que é ensinado pelo magistério ordinário universal. Se o que aparenta ser o magistério ordinário universal contradiz o ensinamento da Igreja, então a conclusão necessária é que isso não pode ter vindo da verdadeira hierarquia da Igreja Católica, pois eles são assistidos por Cristo a não cometerem erros a esse respeito. É contrário à constituição da Igreja rejeitar o magistério ordinário universal como falso, ao mesmo tempo que aceitando a hierarquia que o promulga como sendo a verdadeira Hierarquia Católico-Romana. A noção de magistério ordinário universal do bispo Williamson é falsa, e extremamente perigosa, pois leva o católico a crer que a inteira Igreja docente, o Romano Pontífice com todos os bispos, seja capaz de ensinar erro em matérias que são da alçada da fé. Portanto, os princípios do bispo Williamson concernentes ao magistério ordinário universal não podem ser usados contra os argumentos em prol do sedevacantismo, já que os princípios dele são falsos.


O Quarto Argumento
[Tirado do Número 343]

Aqui o bispo Williamson tenta neutralizar aquele argumento dos sedevacantistas que postula que, dado que os papas do Vaticano II são hereges públicos, eles não podem ser Papas. Ele responde que os papas conciliares, embora tenham afirmado heresias objetivas, subjetivamente não são culpados do pecado ou crime de heresia, devido ao fato de não termos como provar, fora de um tribunal legítimo, que eles realmente têm consciência de contradizer o ensinamento católico.

Resposta. (…omissis…)

[N. do T. – Embora do mais alto interesse, a resposta a este ponto saía do assunto do M.O.U. que principalmente interessa aqui, e por brevidade a omito, referindo o leitor interessado neste argumento ao estudo mais amplo do Rev. Pe. Anthony CEKADA, O erro mentevacantista do bispo Williamson, set. 2006; trad. br. de nov. 2012 em: “wp.me/pw2MJ-1zS”.]


Resposta ao Número 344

Esta continuação é uma explicação da infalibilidade da Igreja, mas que padece dos mesmos erros, similares aos de Hans Küng, que mencionamos acima. Procura desvincular da hierarquia a infalibilidade e indefectibilidade.

No segundo parágrafo, o bispo Williamson exprime clarissimamente a noção católica de infalibilidade da Igreja. Essencialmente, ele diz isto: que Cristo assiste à Igreja Católica de tal maneira, que Ele os preserva de erro no ensinamento da doutrina católica.

No terceiro parágrafo, porém, diz ele que, porque Deus não quer remover o livre arbítrio, esses mesmos eclesiásticos, que no parágrafo dois eram assistidos por Cristo evitando que cometessem erros, são na realidade capazes de erro. Isso não faz o menor sentido.

Ele tenta salvar a infalibilidade dizendo que Deus não permite que a Sua Igreja se torne “inteiramente defectível”. Prova disso é que até mesmo os papas do Vaticano II ensinaram algumas coisas que eram verdadeiras. Podemos concluir que a Igreja poderia falhar parcialmente, i.e., ensinar um pouco de erro, mas não todo.

Aí então, ele coloca a pergunta: Como alguém pode distinguir entre a verdade e a falsidade, num caso desses? A resposta é: peneirando, isto é, comparando o que é ensinado pelos “papas” vaticanossegundos com o magistério tradicional.

Ele repete então a tese Küng, de que a infalibilidade da Igreja não repousa na hierarquia sozinha, mas na Igreja inteira. “Ela [a Tradição] tem sido aquilo para o que Deus dotou Sua Igreja como um todo – e não apenas os Papas – com a direção do infalível Espírito Santo.” [Sublinhado do original.]

Hans Küng aplaudiria essa afirmação com ardente entusiasmo. Küng diz:

“A Igreja, contudo, não pode simplesmente ser equacionada à Igreja oficial, ao papa e bispos. É antes a Igreja escondida, mas completamente real, daqueles que verdadeiramente creem, aquela que não pode errar, porque Cristo, conforme sua promessa, permanece com ela até o fim do mundo; ela é a “coluna e o baluarte da verdade” (I Tim. III, 15) Nessa medida, a Igreja foi preservada mesmo sob um papado errante e falhante.”
[11. Küng, op.cit., pág. 195.]

A teoria do bispo Williamson nos faria crer que a infalibilidade e indefectibilidade da Igreja são preservadas pela triagem que os fiéis fazem do magistério papal, a fim de descobrirem os erros deste. Num caso tal, o Espírito Santo assiste à Igreja discente quando Ele falhou em assistir à Igreja docente, i.e., a hierarquia. Isso não faz sentido algum. O que pode ser a assistência do Espírito Santo ao Papa e bispos, se Ele falha em preservá-los de ensinar erro à Igreja inteira? Se Ele falha em preservá-los de erro, que garantia nós temos de que a Tradição é a verdade?


Conclusão

O bispo Williamson vem laborando sob graves erros conceituais acerca da natureza do magistério, da infalibilidade da Igreja, da indefectibilidade da Igreja, e da natureza do pecado e crime de heresia… As teorias dele sobre o magistério tornam a ele e aos seus seguidores logicamente comprometidos com a heresia de que o magistério ordinário universal pode realmente ensinar alguma coisa contrária à fé.

O erro do bispo Williamson é o seguinte: ele separa a infalibilidade e indefectibilidade da Igreja Católica Romana da hierarquia dessa mesma Igreja, e transfere-a para os fiéis peneiradores.

Em contrapartida, a força do argumento sedevacantista é identificar de maneira absoluta e exclusiva a infalibilidade e indefectibilidade com a Hierarquia Católica Romana. Consequentemente, uma hierarquia falhante não é a Hierarquia de maneira alguma.

O bispo Williamson, no entanto, não está enxergando o quadro geral e uma coisa que é absolutamente fundamental: O Vaticano II e suas reformas são uma mudança substancial da Fé Católica, ou meramente acidental? Dito de outro modo: A religião que encontro em minha paróquia local, operada sob a direção e aprovação do “Papa” Francisco e do “bispo” Novus Ordo local, é a Religião Católica? Ainda de outra maneira: Se eu praticar a religião que me é dada por o que o bispo Williamson diz serem o Papa e os bispos católico-romanos, eu vou para o Céu? Essa religião agrada a Deus, ou desagrada? É a verdadeira religião, ou uma falsa?

Se afirmamos que a nova religião é substancialmente a mesma que o Catolicismo pré-Vaticano II, que ela é a religião católica, e que uma pessoa pode salvar a sua alma adotando-a e praticando-a, então que necessidade temos do movimento tradicional? Resistir a estas mudanças seria resistir à Fé Católica. Seria assinarmos nossa própria condenação à morte eterna.

Se, em contrapartida, a nova religião é uma alteração substancial do Catolicismo Romano, se ela não é a religião católica, e se ela é desagradável a Deus e caminho do inferno, então como podemos dizer que ela é promulgada por uma Igreja infalível e indefectível?

O bispo Williamson em suas explanações está dando a linha padrão de Ecône, a fim de justificar a posição deles de reconhecer e resistir. Querem eles reconhecer a hierarquia Novus Ordo como verdadeira hierarquia católico-romana, mas ao mesmo tempo resistir a ela em praticamente tudo. Eles condenam o Concílio, a Missa Nova, os novos sacramentos. Dizem às pessoas para não irem às Missas aprovadas por essa suposta hierarquia católico-romana. Como nada disso faz o mais mínimo sentido em teologia católica, uma nova teologia teve de ser urdida por Ecône, a fim de justificar-se. Eu me lembro. Já escutei todas essas coisas. Ouvi o Arcebispo Dom Lefebvre dizer em conferência: “O magistério do Vaticano II é só magistério ordinário, que não é infalível.” Na época, acreditei nisso; descobri mais tarde que era um erro gravíssimo, mesmo uma heresia, prout iacent. Era também o Arcebispo Dom Lefebvre que usava a analogia e a palavra peneirar o magistério e leis da hierarquia Novus Ordo para determinar o que é católico e o que é modernista.

A teologia de Ecône remove a infalibilidade e indefectibilidade da Igreja da hierarquia Católica, que é a Igreja docente, e coloca-a nos fiéis, ou Igreja discente. Fazer isso é fazer da Igreja Católica a Igreja Protestante, na qual os indivíduos são inspirados pelo Espírito Santo para descobrir a verdade.

A doutrina católica é que a Igreja docente, a Hierarquia Católico-Romana, é a infalível preservadora da Tradição, e infalivelmente a propõe a toda a Igreja. Com efeito, se isso não fosse verdade, não haveria Tradição alguma com a qual comparar o Vaticano II e suas reformas. Pois, como disse o teólogo do século dezenove De Groot em seu tratado sobre a Igreja: “Todo aquele que separa do magistério infalível da Igreja a salvaguarda e preservação das tradições, remove a infalível certeza dessas tradições com relação ao homem.” [12. De Groot, J.V., O.P., Summa Apologetica de Ecclesia Catholica (Ratisbona: G.J. Manz: 1906) pág. 765. Grifos no original.]

Ironicamente, tanto o bispo Williamson quanto Hans Küng separam da hierarquia da Igreja Católica a salvaguarda e preservação das tradições.

Se bem que o bispo Williamson certamente não queira ter parte alguma com a heresia, sem embargo ele, mediante sua teologia econiana, acha-se vizinho de porta ao lado de Hans Küng.

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APÊNDICE
Resposta a uma objeção:
o sedevacantismo faz “triagem de papas”?

Fez-se uma objeção à minha recente réplica ao bispo Williamson. É uma objeção que frequentemente se faz contra os sedevacantistas. Objeta-se que os sedevacantistas não podem criticar a FSPX por fazer a triagem do magistério, já que eles próprios estão fazendo a triagem dos papas. Encontrando discrepância entre o magistério pré-Vaticano II e o magistério pós-Vaticano II, os sedevacantistas meramente depõem papas que eles constatam carecer de ortodoxia. Mas eles não têm autoridade para fazer isso. Logo, ao mesmo tempo que os sedevacantistas objetam à “peneiração do magistério”, eles próprios estão envolvidos em “peneiração de papa”, o que dá no mesmo.

Antes de tudo, como disse em meu artigo, todo católico deve comparar tudo o que ele escuta com o magistério anterior da Igreja, inclusive novos atos do magistério mesmo, dado que o magistério fixa os dogmas da Igreja, que são objeto de nossa fé. Então, uma vez que a Igreja tenha se pronunciado sobre qualquer questão dogmática ou moral, o pronunciamento dela fica gravado no mármore. Nada, daí em diante, pode contradizê-lo legitimamente. Mesmo papas estão vinculados ao magistério precedente.

A assistência do Espírito Santo à Igreja assegura que todo ato do magistério da Igreja estará em conformidade com o magistério anterior. Ademais, pelo dom da indefectibilidade, o Espírito Santo assiste à Igreja de tal maneira, que nenhuma disciplina ou lei universal, quer seja ela litúrgica ou outra, poderia prescrever algo pecaminoso.

Logo, havendo contradição entre o magistério anterior e o presente magistério, o católico tem de ficar do lado do magistério anterior, que não é alterável de maneira alguma, e é objeto da sua virtude de fé. Assim fazendo, o católico é obrigado a enxergar o “magistério” contraditório como não derivado da hierarquia que é assistida pelo Espírito Santo. Pois é impossível que uma hierarquia, assim assistida, possa promulgar uma coisa dessas. Logo, a contradição que se encontra no novo “magistério” tem de ser vista como um sinal infalívelde que ele não procede de uma hierarquia divinamente assistida. Logo, a promulgação das heresias do Vaticano II por Paulo VI é sinal infalível de que ele não possuía a autoridade papal, nem jamais o fez, já que ele teria sido assistido de tal maneira a evitar a promulgação de heresia e erro.

Pode-se dizer o mesmo das leis e disciplinas. Se os tradicionalistas estão dizendo que a nova liturgia é má, e que os novos sacramentos são inválidos ao menos em alguns casos, e que o Código de Direito Canônico de 1983 contém leis pecaminosas, então eles estão implicitamente asseverando que é impossível que essas coisas procedam de uma hierarquia divinamente assistida. A conclusão é o sedevacantismo.

Note-se que o tradicionalista não pode evitar a conclusão do sedevacantismo sem negar implicitamente a assistência do Espírito Santo à Igreja, o que seria realmente herético.

O grave erro da FSPX e do bispo Williamson é, precisamente, dizer que o Papa e a Hierarquia Católica como um todo é capaz de contradizer o magistério anterior, e é capaz de promulgar liturgias más, disciplinas más e leis más para toda a Igreja, destarte criando e promulgando toda uma nova e falsa religião. A solução, dizem eles, é passar o magistério, liturgia, disciplinas e leis conciliares e pós-conciliares pelo crivo, para obter o que eles julgam tradicional, ao mesmo tempo que reconhecendo os promulgadores da religião falsa como a legítima hierarquia católica. Isso significa que a hierarquia católica infalível promulgou universalmente heresia e erro, assim como liturgia má, leis más e disciplinas más. Só que isso é contrário à fé.

Portanto, a fé exige de nós, não que coemos o magistério e disciplinas faltosos, mas que rejeitemos os promulgadores como falsa hierarquia, isto é, como uma hierarquia que não têm a autoridade de ensinar, de governar e de santificar a Igreja.

Os sedevacantistas não estão depondo ninguém, dado que não têm autoridade alguma para o fazer. Assim, na tese do bispo Guérard des Lauriers, os fiéis podem e devem dizer somente que a hierarquia Novus Ordo carece de autoridade, pelas razões aduzidas, mas não está – nem pode ser – deposta, salvo por uma autoridade legítima.

O sedevacantismo, como eu disse em meu artigo, segue aquilo que S. Paulo diz aos fiéis gálatas no primeiro capítulo dessa Epístola. Se alguém, incluindo um anjo ou ele mesmo, pregar uma doutrina diferente daquela que ele pregou, seja anátema. Ele não diz: peneirem a doutrina falsa para reter as migalhas tradicionais. Noutras palavras, se o pregador viesse a contradizer o magistério precedente, ele deveria ser totalmente rejeitado, e não “aceito mas peneirado”. Assim também, Paulo IV convoca à plena rejeição do eleito papa que calhe de ser um herege. Os fiéis têm o mandamento, não de peneirar a doutrina dele para reter o que for verdadeiro, mas de considerá-lo um falso papa.

Portanto, se com “triagem de papas” se quer dizer que os fiéis católicos devem rejeitar como falso um pregador de doutrina falsa, ainda que ele porventura fosse o próprio S. Paulo, nesse caso os sedevacantistas se confessam culpados, pois isso é o que S. Paulo e a Igreja Católica exigem que façamos. “Triagem de papas” é, na realidade, o termo errado. “Triagem de herege” é mais exato, isto é: peneirar a hierarquia à cata de hereges, coisa que a Igreja sempre fez. Pois nenhum herege pode ser verdadeiro Papa.

O bispo Williamson quereria transferir a assistência do Espírito Santo, do Papa e Hierarquia, para os fiéis que creem, assegurando assim a infalibilidade do magistério por meio do consentimento e aceitação dos fiéis. Nesse sistema, pode-se ter um Papa e uma Hierarquia em defecção, mas ao mesmo tempo uma Igreja infalível e indefectível.

Diz um ditado que não se pode comer o bolo e tê-lo inteiro ao mesmo tempo. Já nesse sistema, por assim dizer, pode-se ter o seu papa e devorá-lo ao mesmo tempo!




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(Algumas mudanças na tradução de responsabilidade nossa)


Créditos para: 

Rev. Donald J. SANBORN, Resposta ao Bispo Williamson sobre a Vacância da Sé Romana, fev. 2014; trad. br. por F. Coelho, São Paulo, mar. 2014, blogue Acies Ordinata, http://wp.me/pw2MJ-2eY

Fonte principal: RESPONSE TO BISHOP WILLIAMSON On the Subject of the Vacancy of The Roman See, By Most Reverend Donald J. Sanborn, in:
“novusordowatch.org/sanborn-response-williamson.pdf”.

Apêndice: Is Sedevacantism Pope-Sifting?, 25 fev. 2014, in:
“novusordowatch.org/wire/sedevacantism-pope-sifting.htm”.

CRÍTICAS E CORREÇÕES SÃO BEM-VINDAS:

f.a.coelho@gmail.com